sexta-feira, 26 de junho de 2009

23) Beijo


- Depois, Maise, prometo. Talvez amanhã. Hoje já te fiz chorar e ainda nem jantamos.

- É verdade. Estou com fome. Voltemos ao jantar então. Tana fez uma paella simplesmente divina. Ainda bem que está no aquecedor. Você pode contar sobre teu trabalho durante a viagem.

- Que viagem???

- Para São Pedro, onde eu morava. Preciso trancar a matrícula da faculdade, tomar providências com o apartamento, visitar o marchand de meu pai, ah... Tantas coisas! Você vai comigo, não é? Não quero dirigir até lá e preciso ir de carro para trazer tudo que quero. Podemos sair de manhã bem cedo, logo após a praia. Acho que em dois dias resolvemos tudo.

- Maise!!! Você não ouviu nada do que falei?

- Lógico que ouvi. Você disse que não sabe quanto tempo ficará aqui na Terra e que indo embora vai deixar de ser “você” e passar a ser parte “deles”.

- Só contei isto para que entendesse porque seu plano de ficar aqui em Portal não era viável.

- Pois seu raciocínio está tortíssimo e agora sim é que não saio daqui mesmo. Se nosso tempo é pouco, não vou desperdiçar um único minuto que seja longe de você. Não que acredite neste futuro para nós. Penso que pode existir um sentido maior para nosso encontro. Ou acha mesmo que Deus seria cruel ao ponto de fazer-nos encontrar um ao outro para logo em seguida nos separar? Para um anjo, sua fé é bem limitada. Isto seria até preocupante, mas deixa-me é aliviada.

- Porque sente alivio com minha fé limitada?

- É óbvio que um anjo com uma fé tão precária ainda tem muito a evoluir. Portanto está longe do seu próximo passo evolutivo. – Concluiu radiante.

- Maise, confesso que você consegue dar nó em meu cérebro!

- Ah, Adriel! Mesmo que não acredite, que pense que não temos futuro, nós temos o presente. Vamos deixar de vivê-lo por um futuro que não sabemos qual será?

- Não quero que sofra se um dia eu tiver que ir.

- Vou sofrer, Adriel. Partirá meu coração, com certeza. Mas agora é tarde demais. Você fez o que devia e alertou-me para os riscos, mas o coração é meu, a decisão é minha. E quero ficar ao teu lado cada instante, cada segundo que puder.

- Tem certeza, querida?

- Absoluta. - Sorri. Não devia, mas estava feliz com sua teimosia. Comemos alegres, fazendo o planejamento da viagem. Fiz algumas ressalvas: ela não tomaria nenhuma atitude definitiva. Nada de vender a casa e coisas do gênero. Também decidi que no retorno eu iria a Celes e consultaria os conselheiros sobre nós. E que as coisas entre nós continuariam como estavam até minha volta. Ela concordou com tudo, ansiosa por manter meu apoio à sua mudança temporária para Portal.



Após o jantar toquei violoncelo para ela. Iria viver cada instante na Terra, como ela desejava, mas ainda que um fiapo de sua esperança estivesse criando raízes em mim enquanto não tivesse algo concreto dos conselheiros continuava não vendo futuro para nós. Meu coração ondulava entre a fé que renascia e a incerteza sombria. Então toquei Romance de Saint-Saens, tentando mostrar a ela um pouco de como me sentia.

Penso que toquei razoavelmente, porque mesmo após terminar ela permaneceu sentada e pensativa. Levantei-me e fui até ela.

- Lindo, anjo! Triste demais, mas muito lindo. – Suspirou e logo após, com seu jeito característico, bagunçou os próprios cabelos como se espantando a tristeza.

- Quero que ouça uma música. Trouxe alguns cds. Vamos ouvir na varanda? – Enquanto falava já se encaminhava para o aparelho de som. Separou um cd da pilha próxima, colocou, apertou o play e levou-me pela mão até a varanda.

- Dance comigo. – Parada em minha frente, colocou meus braços em torno de sua cintura e suas mãos apoiadas em meu peito.



– Esta música chama-se Janta e é linda. Quero ouvi-la assim, abraçada a você, dançando. – Segui seus passos lentos. Não era difícil. Difícil era concentrar-me em outra coisa que não fosse ela, que cantarolava baixinho acompanhando a canção.

Eu quis te conhecer, mas tenho que aceitar
Caberá ao nosso amor o eterno ou o não dá
Pode ser cruel a eternidade
Eu ando em frente por sentir vontade


Que bonito! A letra era perfeita e parecia escrita para nós. Trouxe-a um pouco mais próximo de meu corpo.

Eu quis te convencer, mas chega de insistir
Caberá ao nosso amor o que há de vir
Pode ser a eternidade má
Caminho em frente pra sentir saudade


Era a primeira vez que dançávamos e também era a primeira vez que nos abraçávamos assim. Ela era perturbadoramente quente e macia.

Clipes e lápis de cor na minha cama
Todos pensam que estou triste
Vou passear nas melodias e abelhas e pássaros
Ouvirão minhas palavras?
Estaremos nós dois e você e eles juntos?


Sem perceber estávamos dançando ainda mais lentamente. Ela me olhava enquanto tocava meu rosto com a ponta dos dedos. Eu estava praticamente paralisado. Hipnotizado era a melhor definição.

Eu posso esquecer de mim mesmo
Tentando ser todos os outros
Eu sinto que podemos ir embora
Me delicie hoje
Eu te deixo ficar se você se render

Ela traçou o contorno de minha boca, olhando-a e umedeceu levemente os lábios. Não me recordo de ter pensado. Apenas reagi. Beijei-a levemente, querendo sentir seu gosto em meus lábios. Eles eram ainda mais macios do que imaginara tantas vezes. E doces.

- Hum... Bom! – Levantei o rosto e toquei meus próprios lábios com a língua para sentir melhor seu sabor. Ela apenas sorriu levemente. Beijei-a novamente.

- Abra. – Ela disse após um instante, tocando com a ponta da língua onde meus lábios se encontravam fechados. Abri um pouco.

- Mais. – Ela pediu, enquanto seus lábios sugavam um dos meus. Abri. Senti sua língua entrando em minha boca e tocando-a por dentro. A sensação de que parte dela estava em mim centuplicava todas as sensações e quando ela começou a sugar minha língua para dentro dela, pensei que meu coração pararia se isto fosse possível.

De repente ela interrompeu o beijo, agarrando-me ainda mais forte. – Adriel! – Exclamou. Demorei um pouco para sair do entorpecimento e voltar à realidade. O que teria acontecido?

- Olhe! – Disse, olhando para baixo. Acompanhei seu olhar, vendo a varanda lá embaixo. Eu tinha flutuado com ela, sem perceber.

Descemos rindo, estupidamente felizes.


Texto registrado no Literar.

Imagem do beijo daqui.

Agradecimentos à Lídia por sugerir-me Romance de Saint-Saens, a música perfeita para Adriel tocar neste momento.

0 comentários:

Posts relacionados: