domingo, 28 de junho de 2009

24) Tentações de Adriel


Levei Maise para casa um pouco após. Tínhamos que dormir cedo para a viagem amanhã, mas ficamos conversando e quando vimos era tarde já. Ia embora já, ao menos ia fingir ir.

Desde aquela noite da festa de Antônio e especialmente após a quase queda da árvore acostumei-me a passar as noites na cabana, vendo-a dormir. Não era realmente necessário e nem ela sabia, apenas quando tentava ficar em casa sentia-me agitado, nervoso e ansioso. Só acalmava-me ao vir aqui. Naturalmente estava envergonhado com a fraqueza de minha força de vontade. Minhas melhores intenções desabavam quando o assunto era Maise. Parecia que todos os séculos de autodisciplina e rigor não existiram ou simplesmente desapareceram e ainda não entendia completamente como isto poderia ser.

- Adriel, fique comigo esta noite. – Pediu ela olhando-me cândida e inocentemente.

- Fizemos um trato, lembra-se? Concordei com a viagem e a mudança provisória desde que as coisas entre nós permanecessem como estavam até meu retorno de Celes.

- Só quero dormir sabendo que está aqui. Prometo me comportar. – E beijou os dedos em cruz, como fazem as crianças quando prometem não fazer arte. Sorri.

- Está bem. Vá se trocar então e ficarei até que durma. – Ri quando foi correndo, antes que eu mudasse de idéia, como se isto fosse possível. Ficar era tudo o que queria e faria de qualquer forma, mesmo sem ter seu aval.

Voltou trajando um pijaminha de algodão apenas aparentemente casto e inofensivo. Dispensei a roupa que ofereceu. Era mais seguro continuar com as minhas.

- Deite-se aqui. – Deu um tapinha na cama ao seu lado. Deitei-me por sobre as cobertas.

Logo ela estava dormindo enroscada em mim, com uma perna sobre a minha, a cabeça em meu braço e um braço em meu peito. Eu mal respirava com receio de acordá-la ou, pior, perder o controle. Queria tocar e beijar seu corpo inteiro até que seu gosto e de cada contorno daquela que era única para mim entrassem na memória de meu corpo e lá ficassem para sempre.

Olhei seu rosto ainda mais suave assim adormecida. O que tinha para causar este efeito devastador em mim? Porque ao seu lado minha vontade se esvaia?

Éramos muito diferentes e não apenas pelas experiências de vida. Maise era sentimento puro, instinto, calor, reação onde eu era racionalidade e ponderação, mas parecia-me que a razão dela era mais efetiva que a minha e que seguindo apenas o instinto aproximava-se mais rápido da essência dos fatos, enxergando-os claramente. Sua reação à nossa conversa era uma comprovação disto. Tenho me preocupado em ser responsável e talvez tenha esquecido ou perdido o mais importante, como ela mencionou: a fé.

Como Deus poderia dar-nos isto para em seguida retirar? Não fazia sentido e sempre pensei que a fé não deve ser irracional. Estou tão acostumado ao previsível, ao esperado e sabido, que quando Maise surgiu em minha vida não soube avaliar corretamente e ela tão mais inexperiente ainda assim chegou imediatamente ao cerne da questão.

Observei-a novamente, admirando sua confiança, dormindo inocente e entregue em meus braços. Talvez Deus a tenha colocado em minha vida para que entendesse isto e para que aprendesse a lutar pelo que acredito a despeito das impossibilidades e das improbabilidades.

Lembrei-me de nosso beijo, buscando sem encontrar por paralelos em minhas memórias de outras vidas. Alguns rostos femininos passavam rapidamente, mas nenhum tivera o mesmo apelo que Maise. Seria por não ter ainda vivido um grande amor que não estava preparado para o próximo passo? O conselho teria muito a me dizer.

Abaixei o corpo até encostar meu rosto no travesseiro e continuei a olhando e lutando contra o desejo.

De alguma forma teria que me controlar para resistir não só naquela noite, mas em todas as outras que se seguiriam. Celes deveria estar em minha cabeça. Se não houvesse mesmo nenhuma forma de ficarmos juntos, não a macularia e ao menos esta culpa não sentiria. Algum dia encontraria outro homem e ele a tocaria pela primeira vez como deveria ser.

Senti-me queimar de vergonha pelos ciúmes e possessividade que seguiram este pensamento. Pessoas não pertencem a pessoas, recordei. Maise não era minha propriedade ainda que a quisesse apenas para mim e a idéia de outro homem a beijar me fizesse perder o fôlego.

Acabei adormecendo em meio a estes pensamentos.



Texto registrado no Literar.

Imagem daqui.

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