sexta-feira, 10 de julho de 2009

29) Dias perfeitos


Ficamos mais dois dias em São Pedro e foram poucos para o tanto a fazer, mas queríamos voltar logo para Portal do Sol. Sentíamos falta de nossas casas, do ar puro, do mar, do silêncio e, sobretudo da paz que tínhamos lá. Além disto, eu tinha esquecido os diários de papai. Estava ansiosa para saber o final da estória deles, desvendar o mistério de mamãe e quem sabe, o meu também.

Adriel queria ir a Celes, motivado pela esperança de encontrar alguma saída para nós. Eu não estava com tanta pressa disto, porque iríamos nos separar e mesmo que fosse por poucos dias, não conseguia livrar-me da sensação incômoda de que aquela viagem nos reservava algo ruim e não bom como ele esperava.

Não fossem estes motivos e gostaria de ter parado o tempo e fixado-o naqueles dias perfeitos. Embora não houvessemos mais nos beijado, sentíamo-nos muito próximos, saboreando o prazer de apenas estarmos um com o outro.

Na sexta-feira fomos a uma reunião com meu advogado. Além de seus encargos de sempre, ele aceitou encarregar-se da manutenção da casa, pagamento de contas e estas coisas chatas.

Voltamos em casa para pegar uma cesta com mantimentos, porque Adriel queria que almoçássemos no tal lugar que descobrira. Fomos de carro até um ponto e depois voando. Estava acostumando-me já aquela sensação e não tinha mais medo como nas primeiras vezes.

Fizemos um pic-nic vagaroso na cratera, aproveitando o silêncio depois de tantas buzinas e todos os ruídos da cidade. Trouxemos vários tipos de queijos, pães, frutas, vinho para mim e suco para ele. O dia estava agradável e após comermos, tiramos um cochilo rápido. Depois passamos um tempo nadando no lago de águas mornas. Batizamos o local de Cratera do Anjo e aquele seria nosso lugar especial sempre que voltássemos a São Pedro.

A tarde foi dedicada às compras para casa. Já que ficaria por um período maior na cabana queria conforto e Adriel concordou desta vez. Levou-me à loja onde comprara seus móveis. Eles tinham minha cadeira de ursinhos dos Irmãos Campana, mas fiz que não vi. Além de cara demais, seria uma total falta de senso no espaço acanhado. Não conseguia imaginar aqueles móveis imponentes em minha cabaninha rústica, mas olhando com cuidado acabamos encontrando peças menores e compatíveis, por um preço até que razoável. Bem, nem era tanta coisa assim: cama, guarda-roupas, mesa, cadeiras, escrivaninha e armários de cozinha. Como era impossível levar no carro dele, a loja providenciaria a entrega em Portal na segunda-feira.

Em casa vi que tinha mensagem na secretária. Era François, preocupado e pedindo desculpas. Apaguei irritada, mas Adriel insistiu para reconsiderar, alegando que amigos eram preciosos demais para serem jogados fora ao primeiro erro. Concordei em ir com ele à galeria amanhã. Adriel queria comprar um quadro que vira e aproveitar para conversarmos e acertarmo-nos todos. Liguei para François combinando uma visita na parte da manhã, assim logo estaria livre.

Fomos jantar em um restaurante italiano muito romântico, com velas na mesa e música ambiente. Adriel estava bonito em um jeans escuro e camisa. Eu tinha me produzido um pouco mais também e usava um vestido branco molenga com fios prateados, sensual por conta das costas nuas. Depois do jantar, dançamos abraçados por algumas músicas. Suas mãos acariciavam a pele de minhas costas e da nuca, provocando-me arrepios. O clima entre nós começou a ficar denso demais e não estranhei quando ele quis parar e ir embora.

Estava entendendo melhor meu anjo depois da noite passada e procurei não forçar uma aproximação física. Sabia que ele primeiro teria que vencer o dilema interior para depois tocar-me como desejávamos. Por enquanto, saber de seu sentimento, estar ao seu lado todos os dias e dormir abraçada a ele era o bastante.

No dia seguinte chegamos cedo na galeria e François estava gentil e educado até mesmo com Adriel. Percorreram todos os ambientes trocando idéias sobre artistas, estilos, técnicas e pude ver o olhar de François mudando do desdém inicial para a surpresa até chegar à admiração. Ri discretamente ao lembrar que Adriel continuava com suas sandálias de couro. Além de um quadro ele comprou também a estatueta de um casal beijando-se. Entendi que pensara em nosso primeiro beijo e comprava-a para eternizar aquele momento.

François convidou-nos (e agora realmente incluía Adriel no convite) para jantar esta noite. Implorou quase, dizendo que seus pais também gostariam da oportunidade não apenas para desculparem-se como para conhecê-lo melhor. Adriel aceitou antes que eu pudesse recusar. Quando saímos e o inquiri a respeito, disse que não queria que eu fechasse portas que poderia necessitar no futuro e que deveria lembrar-me sempre que François adorava-me. Perguntei-lhe como sabia e disse que explicaria no caminho de volta.

Fomos a um shopping para mais compras, almoçando por lá mesmo. Ainda precisava de eletrodomésticos e também de roupas apropriadas para a praia. Adriel aproveitou também para algumas compras e desfilei com ele, para cima e para baixo, com ares de proprietária até o final da tarde. Não resisti a uma passada no cabeleireiro, mas ele riu quando perguntei se não gostaria também de aparar o cabelo. Disse que seus cabelos não crescem e nem sua barba e que aproveitaria para comprar livros e CDs enquanto aguardava.

Depois de descarregar todas as compras em casa, tomamos banho apressados, vestimo-nos rapidamente e ainda assim chegamos atrasados ao jantar. Claire e Jacques, os pais de François pareciam realmente arrependidos. Pediram desculpas, dizendo que se deixaram dominar pelo preconceito. O jantar transcorreu agradável após os momentos iniciais. Eles comentaram a viagem a Grécia e surpreenderam-se ao ver que Adriel conhecia boa parte do mundo. Das viagens passamos às artes e ao saberem que ele tocava violoncelo ficaram encantados. Ao final, para minha diversão, Adriel tinha-os na palma da mão. Despedimo-nos novamente amigos e entendi que ele estivera certo o tempo todo. Eles gostavam de mim realmente e teria sido uma pena deixar este carinho se perder.

Fomos dormir um pouco entristecidos. Embora fosse bom voltar, aqueles dias tinham sido especiais para nós, uma pausa idílica que se findava. Amanhã voltaríamos a encarar nossos problemas e Adriel logo partiria para Celes, sem sabermos o que resultaria desta viagem.

Aqueles poderiam ser nossos últimos momentos de despreocupação e apenas ficamos nos abraçando em silêncio na cama. Minha boca estava seca de tanta vontade de um beijo e desta vez estava difícil ignorar o desejo, sentindo seu abraço forte e intenso mesclado ao sentimento de nostalgia que se apoderara de nós. Sabia que ele também queria. Ouvia as batidas mais rápidas de seu coração e esperei que a vontade fosse mais forte que o senso de responsabilidade, mas não foi. Acabei dormindo com o calor de seu corpo e o carinho em meus cabelos.


Texto registrado no Literar.

Imagem daqui.

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