sábado, 11 de julho de 2009

30) Retorno a Portal do Sol


Ela trancou a casa e saímos devagar, despedindo-nos destes dias em que permitimo-nos esquecer um pouco as preocupações. Antes do anoitecer estaríamos em Portal, na segunda-feira ajudaria Maise na arrumação dos novos móveis e à noite ou mais tardar no amanhecer de terça, voaria para Celes.

Seguimos uma parte do caminho em silêncio, apenas ouvindo os novos cds que comprei com as dicas dela.

- Anjo. – Adorava quando me chamava assim.

- Sim.

- Explique agora aquilo que disse sobre François. Sobre saber que ele adora-me.

- Lembra-se da luz que vê em mim?

- Sim. É branca com reflexos prateados.

- Chama-se Aura. Todos os seres vivos a possuem. São cores emanadas de nossos corpos e refletem os sentimentos e até mesmo a essência de cada um. A maioria dos humanos não consegue ver a aura dos outros. Não sei como você consegue ver a minha. Eu posso ver a aura de qualquer um.

- Até a minha? Como é?

- A sua é feita de cores vívidas e alegres. Não seria possível ter esta aura se tivesse qualquer mal em você.

- Foi por isto que nunca pensou na possibilidade de que fosse um demônio disfarçado?

- Não precisaria ver sua aura para saber isto. Está expresso em seus olhos, em seu jeito de ser, mas sim, a aura confirmou isto. – Tive que sorrir à idéia de que ela fosse um demônio. Impossível. Maise deveria ser um anjo como eu.

- E como é a de François?

- Normal, alguns pontos iluminados, outros escuros e predominância dos primeiros, como a maioria dos seres humanos. Mas não foi pela cor geral de sua Aura que soube e sim pela mudança que ocorre nela quando ele a vê.

- Como assim, mudança? A cor não é fixa?

- Não. Existe um padrão geral que expressa a essência de cada um, mas podem mudar sutilmente de acordo com o sentimento que está predominando em momento como, por exemplo, quando alguém está com raiva emite focos vermelhos escuros e quanto mais intensa a raiva e mais próxima ao ódio, mais escuro será até quase o preto.

- E sua cor indica o quê?

- É meio que uma cor padrão para nós. Indica dons telepáticos, poder de cura, para-normalidade, pureza e bondade. Se prestar atenção, verá que existem algumas mudanças sutis de acordo com meu estado emocional ou com uma situação qualquer que esteja vivendo. Quando penso em você, por exemplo, fica diferente.

- E a minha também?

- Sim. – Infelizmente não contive o riso. Maise era muito expressiva em suas cores.

- Por que está rindo? Quer dizer que quando penso em você, dependendo do que penso ou do que estou sentindo, você sabe? Ah, meu Deus, que vergonha. - Tapou o rosto com as mãos ao falar isto.

- Quanto mais a conheço, mais fácil fica interpretar as mudanças de tonalidade, mas não quer dizer que sei exatamente o que está pensando. É mais o sentimento que identifico. Tristeza, amor, carinho, saudades. - Não queria constrangê-la.

- Não é justo! Vou prestar mais atenção na sua agora.

- Se você consegue ver a minha, deve conseguir ver qualquer outra. Seria interessante treinar esta visão. Pode ser útil como defesa no futuro, para avaliar uma pessoa desconhecida, por exemplo. Vou pedir a Tana para ajudar você com isto enquanto eu estiver fora.

- Por que Tana? Ela sabe ver Auras?

- Muito bem, aliás. Tana é uma Elemental. Uma fada. – Se eu não contasse, sabia que Tana contaria. O prazo dado pela Rainha já terminara.

- Hãnnnn??? Fada! Não é não. Ela é como eu.

- Querida, pedi que ela assumisse forma humana quando estivesse com você, para não assustar-se mais. Isto no início quando não entendia bem nem o assunto de minhas asas. Ela é uma fada sim.

- Adriel, fadas não existem. – Sorri ao ver que ela cruzara os braços no peito, em negativa. Não queria mais coisas para bagunçar sua cabeça e entendia, mas não tinha como adiar.

- Sim, pequena. Existem sim. Tana é uma e lidera uma equipe de fadas que cuida não apenas de minha casa como de todo o complexo. É uma Elemental.

- O que é um Elemental?

- Os Elementais eram anjos milhares de anos atrás. Quando houve a luta entre Lúcifer e o Arcanjo Miguel, os anjos se dividiram entre os dois lados. Quando Lúcifer foi derrotado e expulso, alguns dos anjos que estavam de seu lado foram com ele, a maioria retornou o apoio ao Arcanjo e alguns não ficaram nem de um lado e nem de outro e preferiram sair dos céus. Estabeleceram aqui na Terra sua base, como protetores da natureza, escolhendo um dos quatro elementos da natureza como essência: fogo, água, terra ou ar. Por isto são chamados de Elementais. Assumiram aspectos diferenciados, mas no geral são criaturas pequeninas, quase sempre com asas. Os humanos os conhecem principalmente como Fadas ou Gnomos.

- Então o que aquela mulher, Rita, disse na festa de Antônio era verdade...

- Sim, só que naquele dia não poderia te dizer isto.

- E Tana tem asas como você?

- Tem, mas não com penas como as minha. As dela são mais parecidas as das borboletas. E ela é pequenina como uma borboleta, também.

- Ah! Quero ver isto! Tana pequenina e com asas! Será que ela vai mostrar-me ou não pode?

- Pode, lógico. Aliás, ela quer. Só não mostrou porque não deixei. Ela quer te contar sobre as Fadas e também sobre seu medalhão.

- Rita disse que era um símbolo de proteção das Fadas. Então isto também é verdade?

- Aparentemente sim, querida. Prefiro que Tana conte tudo a você. Aliás, nem sei se ela é quem contará. Talvez ela queira que conheça Etera, o reino dos encantados, onde vive. Amanhã quando conversar com ela saberá tudo.

- Devia ficar brava com você. Só não vou ficar porque não quero que veja pontinhos escuros em mim. – Ela disse com um muxoxo.

- Desculpe. Era muito cedo para te contar. Quis apenas te proteger.

- Vou aprender a ler sua aura e saberei quando estiver escondendo alguma coisa.

- Não se preocupe com isto agora, amor. Vamos aproveitar estes dias.

Ficamos em silêncio o restante da viagem, cada qual com seus pensamentos.

Chegamos a Portal no final da tarde e Maise quis dar um oi a Antônio antes. Ele ficou contente ao nos ver retornando e Marta presenteou-nos com torta salgada e bolo para o jantar, preocupada em não termos comida a nossa espera.

A cabana estava limpa, arrumada e Tana deixara a geladeira recheada. Deixei Maise e fui rapidamente a minha casa guardar as malas, tomar banho e verificar as novidades em meu notebook. Tana já tinha ido e incomodado com o silêncio e a ausência de Maise depois de tantos dias juntos, voltei o mais rápido que pude.

Comemos a torta e o bolo de Marta e depois ficamos um pouco na varanda. Era bom cheirar o mato, a maresia e estar em casa.

Logo ficamos com sono, cansados da viagem e entramos. Tentei ficar acordado pelo maior tempo que pude, olhando Maise adormecida em meu peito. Dormir sem ela nos próximos dias com certeza seria complicado. Queria gravar esta sensação o mais profundamente que pudesse, para lembrar-me quando estivesse só em Celes.


Texto registrado no Literar.

Sobre Auras, leia mais aqui.

Imagem daqui.

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