terça-feira, 11 de agosto de 2009

45) Noivado


Aquele mês passou muito rápido com os preparativos para o casamento e todas as cerimônias.

Tana estava eufórica, absolutamente incontrolável e colocou todos os encantados para trabalhar. As fadas artesãs costuravam e bordavam sem parar, fazendo os vestidos das cerimônias e um enxoval completo para Maise e nossa casa. Tudo era tecido com a seda fabricada em Etera, tão pura e leve que enlouqueceria de desejo o estilista mais famoso.

Minha casa estava sendo colocada de pernas para o ar com uma faxina rigorosa e novas disposições dos móveis. Era ali que moraríamos, embora tenhamos decidido manter a cabana como casa de hospedes e também para noites de nostalgia. Nunca poderíamos desfazer-nos daquele local que já abrigara o amor de Luna e Artur e agora o nosso.

Antônio e Marta também adoraram a novidade e ele fez questão de oferecer a festa em sua casa. Acertamos a data com o cartório e com a igreja. Maise estava encantada com o charme bucólico da pequena capela de Portal e seus olhos ficavam sonhadores sempre que falávamos do casamento.

Eu estava preocupado com as alianças. Incomodava-me ver a mão de Maise sem um símbolo de nosso compromisso, mas não tinha como comprar sem ir a São Pedro, o que só poderíamos fazer dali a alguns dias. Na primeira visita a Etera descobrimos que ela tinha herdado toda uma coleção de jóias reais e apaixonou-se pelo anel preferido da rainha, cujo desenho lembrava uma flor. Era realmente bonito e diferente e ficou sendo sua aliança.

Quando fomos para São Pedro, ela fez questão de que eu também usasse uma aliança, embora recusasse a oferta de comprarmos-lhe outro anel. Desta forma, fomos primeiro de tudo a uma joalheria, onde escolhi um modelo que combinava com meu estilo e gravamos nossos nomes e datas no interior.

Maise telefonou a François e combinou um jantar sem nada adiantar. Quando chegamos e viram nossos anéis, seus pais ficaram contentes. François disfarçou, ainda que fosse evidente sua decepção. Acabou alegrando-se um pouco quando disse que no outro dia iríamos à galeria em busca de novas peças para minha coleção.

Eles aceitaram o convite para o casamento em Portal e ficariam hospedados na pequena pensão da vila, juntamente com os outros convidados dela: seus advogados, dois professores e alguns amigos de seus pais. Tínhamos já reservado todos os quartos para o evento. Era um ambiente simples e bem diferente do que François e seus pais estavam acostumados, mas era charmoso, bem arrumado e penso que iriam sobreviver. Minha casa já estava reservada aos convidados de Celes e o complexo também estava lotado com os convidados de meus assistentes.

Não quis ir junto quando ela foi comprar lingerie, mas desde o momento em que retornou com os pacotes, comecei a suar frio de ansiedade, principalmente pela sua expressão maliciosa. Naquela noite, quando adormeceu não resisti e abri sua mala. Um erro que me fez passar praticamente todas as noites em claro até o casamento. Quando ela adormecia e eu fechava os olhos, logo imaginava-a em cada um daqueles trapinhos sedutores e tinha que tomar banho atrás de banho com água fria.

Nestas noites chegava a questionar a idéia de esperar até o enlace, mas queria tanto que nossa primeira noite fosse especial que consegui resistir, ainda que a cada dia sentisse-me mais ansioso e desesperado de desejo.

Estava preparando uma surpresa para nossa lua de mel. Viajaríamos por quase um mês, mas não lhe contei nada sobre nosso destino, o que a deixou contrariada. Embora adormecesse logo sob minha influência, ela também sofria com nossas noites castas e começamos a evitar beijos, por mais singelos que fossem. Foi um alívio retornar para Portal onde a presença de outras pessoas distraia-nos um pouco.

Faltavam ainda duas semanas para o casamento e fomos praticamente todos os dias a Etera. Niis, um jovem gnomo, parecia apaixonado por Maise e era sua sombra, seguindo-a a todos os locais para onde ia. Achamos engraçado quando ele declarou que era seu guarda pessoal e que era sua obrigação proteger a princesa. Acabamos acostumados a ele e ela afeiçoou-se ao novo amigo.

Niis era uma fonte inesgotável de informação, colocando-nos a par de tudo o que acontecia em Etera e através dele ficamos sabendo que existia uma diferença de poder entre as espécies, sendo os gnomos vítimas de um preconceito velado pelos demais. Niis achava que era porque eles não eram belos como eles.

Os gnomos eram gentis, amorosos e amáveis. Gnon Knur, o chefe da guarda, era um sujeito de poucas palavras e muita ação. Dava-nos a impressão de ser uma fortaleza e totalmente confiável. Ele freqüentemente censurava Niis por perturbar-nos e pedia-nos desculpas pelo comportamento do filho, parecendo realmente constrangido. Ao fim até mesmo ele teve que aceitar o fato de que nada afastaria o filho de “sua” princesa. E Maise também não imaginava Etera sem a presença do amiguinho.

Perguntamos-lhe sobre Elros e disse que Elros não era tão ruim com os gnomos, embora aparentemente não estivesse fazendo nada para derrubar esta separação invisível. Disse que não entendia como ele podia gostar da “bruxa” como se referia a Eileen. Contou-nos todas as maldades que esta fazia aos gnomos, uma raça que ela abominava.

Ele também não gostava muito das outras raças, do povo do ar, do fogo e da água. Parecia haver uma tensão no ar, embora aparentemente todos sorrissem felizes.

Todas as fadas receberam Maise muito bem e disseram que ela poderia ser como elas. Aparentemente era só uma questão de aprendizado para que soltasse suas asas e adquirisse controle sobre todos os poderes das fadas, como mudar de tamanho e forma, voar e fazer encantamentos.

Era por ter estes talentos latentes em seu sangue que conseguira ver minhas asas e minha aura e como eu tinha imaginado, bastaria treino para aumentar sua capacidade de visão.

Todas as fadas tinham um dom primordial e elas achavam que o de Maise era a harmonia. Ela tinha mesmo uma capacidade fora do normal de estar bem consigo mesma e achavam que conseguiria expandir este bem estar para fora de si, atingindo quem desejasse. Da mesma forma, talvez pudesse fazer o contrário como uma forma de defesa, mas tanto um quanto de outro dependeriam de longo desenvolvimento futuro.

Não tínhamos ainda conversado muito com Elros, preferindo antes percorrer Etera e conhecer seus habitantes melhor. Agora, praticamente na véspera da cerimônia não podíamos mais adiar e estávamos indo para um almoço no palácio real.


Texto registrado no Literar.

Imagem daqui.

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