terça-feira, 22 de setembro de 2009

2) O fechamento do Portal de Etera




Não vi. Contaram-me depois que vovó e mamãe cercaram-me na pedra e envolveram-me em energias calmantes até que adormecesse e só partiram após um longo e cúmplice olhar com Tana. Ela providenciou para que Elros carregasse-me até a cabana e ficou velando-me o tempo todo em que dormi, e Niis também não saiu nem por um segundo dos pés da cama, dormindo ali no chão mesmo.

Mais de 12 horas depois, quando acordei, tive uma certeza apenas: Adriel não morrera, apenas abandonara o corpo físico. Ele estava recuperando-se em algum lugar, provavelmente em Celes e voltaria assim que pudesse. Imbuída com esta certeza, não chorei mais e comecei a tomar as providências que se faziam necessárias, enquanto aguardava seu retorno.

A primeira e mais importante foi pedir a Eliah para ir a Celes e trazer-me notícias. Ele foi prometendo voltar tão rápido quanto pudesse. O corpo de Adriel foi colocado em um caixão fechado, mas não enterrado, pois não sabia se precisaria dele ao retornar e decidi deixar para ele decidisse o que fazer.

O complexo estava semi-destruído e nossa casa uma completa bagunça, com todos os móveis e objetos revirados ou quebrados. A equipe de Adriel aguardava instruções e já ia colocar todos para organizar e limpar tudo quando Elros e Tana chamaram-me para uma conversa.

- Maise, não pode continuar aqui. É muito arriscado. Está desprotegida. Yzar e Eileen foram derrotados por você, mas retornarão. Temos que voltar a Etera e fechar o Portal. – Elros disse.

- Não podemos ir antes que Adriel retorne. Ele já deve estar voltando. – Argumentei. Eles olharam-se.

- Mesmo que volte, não é viável que permaneçam aqui. É um risco para todos. Adriel concordaria comigo. – Insistiu ele.

- Talvez possamos ir realizando alguns preparativos para a mudança enquanto esperamos então. O que ele faria com a equipe do Complexo? São todos humanos. Não iriam para Etera.

- Dê férias a todos. Diga-lhes para irem para suas casas de origem. Providencie pagamentos futuros e peça para que aguardem até serem convocados de volta. O que acha?

- Sim. Pode ser. E quanto às casas e estruturas?

- As fadas podem fazer um encantamento de ocultação e eles ficarão protegidos enquanto você estiver em Etera, menina. – Era Tana agora, anormalmente séria.

- Está bem. Vamos organizar e deixar tudo pronto até o retorno de Adriel. Ele deve voltar com Eliah. - Mais uma vez percebi aquele olhar entre Tana e Elros, mas no momento não queria saber seu significado. A ausência de Adriel, mesmo que temporária doía e deixava-me em um estado confuso e um tanto quanto irreal, como se nada fosse realmente verdade e estivesse em um sonho.

Telefonei a François avisando que Adriel e eu faríamos uma longa viagem, sem data para retorno e pedindo para que cuidasse dos quadros de papai. Também avisei aos advogados e instrui-os para investimentos em fundos seguros. Antônio mais uma vez concordou em cuidar da cabana em nossa ausência e ficou com as chaves, após uma despedida emocionada e carinhosa.

Uma semana se passou desta forma nebulosa em que ocupei todas as horas do dia com os preparativos para a mudança e à noite adormecia exausta em meio à tristeza e saudades.

Não tocávamos no nome de Adriel e todos falavam baixinho, andavam silenciosamente e olhavam-me com o canto dos olhos. Eu sabia o que pensavam, mas estavam errados e quando Adriel voltasse veriam que eu tinha razão: ele estava vivo, recuperando-se em Celes.

Eliah voltou ao final de uma semana daqueles eventos. Deve ter chegado muito cedo, pois quando acordei já estava na sala, onde todos também estavam reunidos. Tana, Elros, Niis, Gnom e muitos outros.

- Eliah! Quando chegou? Devia ter me acordado. Como está Adriel? Ele veio com você? – Olhei por toda a sala em sua procura.

- Maise, Adriel não está em Celes e nem em parte alguma. Demorei para voltar porque ficamos tentando rastrear sua essência pelo universo. Se ele estivesse em qualquer lugar teríamos encontrado. Sinto muito ter que dar-lhe esta notícia.

- Como assim? Ele tem que estar em algum lugar.

- Lembra-se do que ele contou sobre a mutação genética e do que aconteceria com seu espírito se algo danificasse seu corpo? É importante que lembre, Maise.

Busquei a lembrança de nossa conversa sobre o assunto, mesmo sentindo a mente confusa. O que mesmo ele dissera? A lembrança veio de repente, velozmente:

“Não vou te enganar, Maise. É muito ruim sim. Porque você, quando morrer aqui, continuará vivendo no mundo fluídico com seu corpo leve e eu não. Nós dois temos apenas esta vida juntos e não mais a eternidade. Quando eu morrer, meu espírito vai se espalhar pelo universo, sem ter um corpo para contê-lo como os humanos.“

- Espalhar pelo universo... Sem um corpo para conter... – Repeti lentamente as palavras enquanto o significado de suas palavras espalhava-se pela minha mente e senti-me despencar em um precipício branco e cujo fim parecia não existir.

Quando voltei à consciência estava deitada no sofá e Tana passava um vidro próximo a minhas narinas. Abri os olhos e soube. A dor que senti foi tão forte e intensa que deixou-me completamente sem ar e Tana teve que socorrer-me com seus sais novamente.

Eu não conseguia falar. A onda de dor espalhou-se de tal forma que tinha receio de que uma palavra fosse suficiente para que transbordasse e afogasse-me, perdendo-me ainda mais nela. Eu sabia que oscilava perigosamente entre a fina linha divisória da sanidade e da loucura e usei o fiapo de controle que restava para ficar quieta.

Se eu não fizesse nada, se não me movesse e, principalmente, não falasse, talvez houvesse uma chance pequena de sobreviver. Não era difícil não me mover. A dor era tão avassaladora e preenchia tanto todos e qualquer recanto de meu corpo que seria impossível qualquer gesto. Difícil era respirar. Cada sopro de ar que entrava em meus pulmões intensificava a dor, que era era fina e aguda e não sei por que pensei em uma faca perfurando meu coração e a partir daí comecei a pensar nisto não como dor e sim como “a faca”.

Algumas pessoas sobrevivem semanas, meses e até anos com facas e objetos cortantes em órgãos internos. Estando bem encaixada era possível, desde que não fosse retirada ou não se movesse. Se fosse retirada abruptamente, o sangue jorraria incontrolável, provocando quase que certamente a morte. Se fosse movida, poderia cortar alguma veia ou vaso importante e resultar no mesmo efeito.

Então, eu tinha uma faca em meu coração e minha sobrevivência dependeria de que ela permanecesse ali, imóvel. Por este motivo não queria me mover, falar e nem mesmo pensar.

Agradeci a Tana pelo remédio que deu e que deixou-me flutuando em um mundo de brumas, onde os pensamentos não existiam e a dor tornava-se algo suportável.

Eles quiseram enterrar Adriel, mas discordei com gestos. Não deixaria meu Adriel ser comido por vermes. Após várias hipóteses recusadas, concordei com um funeral viking. Era o que melhor combinava com ele e o que restava dele iria aos céus em seu encontro.

Eu não queria ir à cerimônia, mas obrigaram-me a estar presente. Disseram que era necessário, que eu tinha que ver para aceitar, conceber interiormente. Enfim... Que custava-me ainda isto? Que diferença faria se queimassem meu Adriel, quando meu coração já era apenas cinzas, apenas resquício do viço passado, quando fomos felizes, ele e eu?

Tivesse certeza da aniquilação de meu espírito e queimaria-me junto ao meu amado, para subir com suas cinzas e juntar-me às suas centelhas espalhadas pelo universo, mas nem mesmo este pobre consolo tinha, pois meu espírito sobreviveria à morte de meu corpo.

Estava condenada à dor e tudo o que podia fazer era rezar baixinho implorando a Deus para que parasse de doer ou que ao menos fosse suportável o suficiente para que continuasse a respirar.

Mas quando, nesta noite mesmo, os gnomos arqueiros atiraram suas flechas do alto do paredão rochoso da laguna em direção ao barco lançado ao mar e meu doce, terno e meigo Adriel começou a queimar, não consegui mais respirar e deslizei rumo ao breu mais uma vez.

Quando acordei, já na manhã seguinte, nada mais restava a fazer do que partir para Etera. Não quis levar nada mais do que o anel e o Tsuru presenteados por Adriel. Todo o restante permaneceu lacrado por magia.

Liah despediu-se de nós no Portal. Com o Portal lacrado e o complexo fechado, não via motivos em continuar como responsável por aquele protetorado. Deixaria, aliás, de ser anjo e viveria a experiência humana ao lado de uma das antigas assistentes de Adriel, Michelle, e parecia feliz ao seu lado. Despedimo-nos com um abraço triste.

Entrei no Portal de Etera amparada por Tana e Niis e assim que cheguei do outro lado utilizei meu medalhão para lacrar o Portal.

A partir daquele momento nenhum Elemental sairia de Etera e nenhum humano entraria. O portal entre humanos e encantados estava lacrado pra sempre.


...


Texto registrado no Literar.

Imagem daqui.

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