domingo, 27 de setembro de 2009

3) A vida sem Adriel



Um mês havia passado desde que fecháramos o Portal e que vivi dentro do palácio, praticamente apenas no quarto, deitada, chorando ou dormindo. Nos primeiros dias à base de calmantes naturais feitos pelas fadas que me deixavam praticamente inconsciente quando acordada. Após uma semana Tana diminuiu as doses e comecei a passar longas e intermináveis horas sem seu efeito, exposta à dor insuportável.

Elros queria que assumisse o trono de Etera, mas não quis. Pedi que continuasse sendo o regente até que estivesse melhor. Ele concordou, mas não deixava de consultar-me a toda hora quanto a decisões sobre o governo. Eu não queria saber de nada, mal estava ouvindo o que dizia, mas ele não desistia. Adriel se fora e não havia mais sentido algum na vida. Tanto fazia uma coisa como a outra. Será que ele não entendia???

O pior de tudo é que eu era culpada. Se tivesse ficado no barco, como Adriel pedira, não teria se jogado na frente da flecha para salvar-me, ou, antes ainda, se tivesse concordado em fechar o Portal quando Elros sugeriu, antes de nossa viagem. Se não tivesse brigado com Tana, Eileen não teria conseguido me envenenar e ele não teria interrompido o tratamento em Celes. Por todos os lados que olhasse, eu era a culpada. Eu matei Adriel, o meu anjo.

As pessoas sabiam disto. Como podiam continuar tratando-me com carinho. Como Elros poderia querer que assumisse o trono de Etera? Não era digna sequer de continuar vivendo, quanto mais de reinar sobre os elementais. Deveria morrer. Queria morrer. Queria tanto! Era meu maior desejo. Seria o justo, o correto.

Deus estava certo, entretanto, em negar-me esta benção. Tinha que viver sem Adriel, sentindo toda a aspereza da vida enquanto vivesse. Era meu castigo por tê-lo matado e estava correto. Entendi porque Tana não queria dar-me mais remédios: não merecia a névoa branca da inconsciência que provocavam. Eu tinha que ser punida.

Mas não era culpada sozinha e sabia disto. Eileen. Quando este nome surgia em minha mente, meus dentes rangiam com a raiva e o ódio. Eu a mataria com minhas próprias mãos se pudesse, se ficasse frente a frente com ela. Perguntei a Tana se não existia algum encantamento que pudéssemos fazer à distância, contra ela, mas respondeu que a mágica dos elementais não eram para o mal.

Passava então horas imaginando formas de assassinato. De Eileen e daquele demônio, Yzar. Em minha mente via-me ressurgindo poderosa, com um exército de elementais treinados e letais, invadindo seus esconderijos e matando-os de formas diferentes a cada vez. Por fim conclui que morrer seria bom para eles. Não. Eles tinham que ser capturados apenas. Levaríamos para uma prisão que construiria em Etera e passaria o restante de minha vida torturando-os, bem lentamente. Cortaria Eileen todos os dias e deixaria sangrando. Quando cicatrizasse, faria outro corte. Não... Melhor ainda. Após o corte, passaria sal e pimenta e deixaria arder, para que sentisse só um pouquinho de minha dor. Arrancaria fora seus olhos, para que não pudesse ver nada, como eu também já não via, cega pela tristeza.

Não recordo quando comecei a conceber que não éramos os únicos culpados. Em última instância era Deus o responsável. Sim. Deus. Ele permitira que isto ocorresse. Não diziam que não havia um grão de areia que se movesse na Terra sem sua autorização? Como Ele pôde fazer isto conosco, comigo? Porque deu Adriel e toda a felicidade de nosso amor para em seguida retirá-la desta forma irreversível? Ele estava brincando com minha vida? Era apenas um joguete em suas mãos? Uma distração para seu tédio? Passei a odiar Deus tanto quanto Eileen, Yzar, mas nada comentei com Tana. Sabia que não adiantaria. Que O defenderia, dizendo que escreve certo por linhas tortas.

Eu era impotente frente a Deus. Tive que reconhecer que nada poderia fazer contra Ele, que Dele não poderia vingar-me. Imaginava como estava divertindo-se com minha dor, com minhas lágrimas e minhas mãos fechavam-se até que as unhas penetrassem na carne, de tanto ódio que sentia.

Será que Adriel nunca vira como Ele era injusto? Como zombava e gracejava brincando com nossas almas como se fôssemos bonecos de corda? Por que Adriel não viu? Por que me abandonou?

Quando começava a culpar também meu Adriel, meu lindo e inocente anjo, pela ausência em minha vida, pela dor que sentia, recuperava um pouco de lucidez. Pedia-lhe perdão, envergonhada e arrependida e estremecia de temor de que Deus levasse a sério minhas ofensas e desculpava-me também com Ele. Implorava para que entendesse que só pensava aquelas coisas por estar meio enlouquecida de dor.

Então vinha a esperança de Ele entendesse o quanto estava sofrendo e que o trouxesse de volta para mim. Prometia-Lhe que seria boazinha, que voltaria minha vida para o bem, para ajudar os elementais e transformar Etera em um reino de amor, dedicado a ele e adormecia rezando todas as orações que conhecia.

Mas no outro dia, quando acordava, Adriel não voltara e todo o ciclo de pensamentos recomeçava. A atividade mental era tão intensa e barulhenta dentro de minha cabeça que não suportava os ruídos exteriores. Uma simples palavra que diziam e para qual tinha que voltar a atenção, interromper mesmo que por um segundo a torrente de pensamentos que jorravam em meu cérebro, provocava imensa dor. Os ruídos externos pareciam estrondos quando penetravam em meu caos. Por isto isolava-me no quarto e ainda não sendo suficiente passei a usar tampões de ouvido, presos por um lenço em torno de minha cabeça.

Eles traziam-me a comida, mas como poderia comer quando era culpada pela morte de Adriel? Uma bola se formava em minha garganta e impedia a passagem de qualquer alimento. Tana descobriu que conseguia ingerir alimentos líquidos e passei a alimentar-me das vitaminas que ela preparava. Ainda assim, naquele mês emagreci muito, ficando esquelética, com os ossos surgindo por entre a pele, braços e pernas tão finos que quase se podia enxergar por entre eles.

Também não conseguia ver o sol, pessoas sorrindo ou apenas alegres, música e nada que fosse belo. Tudo que era bom e bonito fazia recordar-me ainda mais intensamente dele. Machucava insuportavelmente.

Não havia fuga possível para a dor, porque a ausência do belo também fazia doer pelo contraste com as lembranças que não podia deter. As recordações surgiam atreladas a palavras inofensivas, sem que conseguisse controlar. Tudo trazia Adriel e nossa felicidade perdida de volta.

Para tentar isolar-me passei a imaginar-me dentro de um ovo. Visualizava-me suspensa no ar, em posição fetal e dentro de uma bolha transparente. Recobria esta bolha com camadas e mais camadas isolantes e ao final acrescentava um vácuo. Tudo que viesse até mim, esbarraria neste vácuo e retornaria. Se fosse forte e conseguisse prosseguir além do caos, daria com a camada isolante e também retornaria. Dava um pouco de resultado, mas exigia concentração. Bastava uma distração e tinha que refazer todo o processo.

Sentia-me esgotada e muito próxima à loucura que desejava. Perder a razão seria doce e bom. Implorava a Deus que permitisse ao menos este consolo. Imaginava-me demente, vagando por Etera, na suave inconsciência, eternamente feliz com Adriel.

Perdida nestes processos mentais, não percebia a passagem das horas e nem mesmo dos dias. Não tinha noção de quantos haviam corrido desde que estávamos ali. Poderia ser uma semana, um mês ou um ano.

Uma manhã Elros entrou no quarto, como sempre fazia, para consultar-me sobre Etera. Não queria ouvir. Disse-lhe que fizesse como achasse melhor. Que não me importava.

- Não se importa? É seu reino, seu povo. Eles precisam de você, Maise!

- Não posso, Elros. Vá embora. Deixe-me.

- Você se acha o centro do universo, não é? E está certa. Você é o centro deste universo e vou lhe mostrar.

Pegou-me a despeito de meus protestos e voou comigo para fora do palácio. Esperneei, gritei, esmurrei-o sem que parasse. Como todos os elementais sua força era superior à minha. Sobrevoou comigo jogada em seus ombros por toda a Etera até que eu começasse a vê-la e imobilizei-me aturdida.

O que acontecera ali? Onde estavam as flores exuberantes, o verde luxurioso, as árvores frondosas, a relva macia, o brilho transparente do lago, os sons e a música que sempre houve neste lugar? Porque todas as casas estavam à beira da ruína, com a pintura descascada, telhados caindo? De onde viera todo o lixo que se espalhava pelas ruas, nos portais das residências e em torno do lago?

- Elros, pare. Desça-me. - Ele obedeceu e pousamos na borda do lado, em frente ao palácio.

- O que houve aqui? Fomos invadidos, atacados? Não disse nada sobre isto. Foram os demônios ou os Elfos Negros? – Indaguei, perplexa.

- Foi você, Maise. O reino dos elementais é apenas um reflexo de seus moradores. Os elementais são seres extremamente sensíveis e reagem aos sentimentos de sua rainha. Todos vivem sua dor e são tão tristes como você. Como poderiam dar vida à beleza, se sua rainha está sofrendo?

Afastei a cortina de águas que nublavam meus olhos e por longos minutos observei a devastação ao nosso redor, entendendo o alcance do que ele tinha dito.

- Por favor, Elros, leve-me de volta e convoque todos para um comunicado da Rainha de Etera.

Texto registrado no Literar.

Imagem: desenvolvida por mim à partir da imagem da mulher (fonte desconhecida).

0 comentários:

Posts relacionados: